REPRESENTAÇÃO E IDENTIDADE: ENTRE AS MEMÓRIAS E A FICÇÃO

 

Nancy Rita Vieira Fontes - UCSAL

 

 

A leitura da obra ficcional de Anna Ribeiro (1847-1930) em comparação com a produção paraliterária presente nos diversos artigos publicados nas revistas de mulheres nos levou a refletir sobre a interferência do discurso feminino na produção dessa autora, herdeira das auto-intituladas “feministas cristãs”, muito comuns no Brasil do início do século. O que se percebe é que a autora modula o seu discurso de modo a atender a contento o seu público ou, ainda melhor, aos patrocinadores de suas produções, estratégia comum de mulheres que quisessem tornar-se escritoras em um mercado difícil de ingressar e notadamente misógino.

A investigação de três momentos da produção literária da escritora pode-nos fazer observar com melhor exatidão como se dá este processo: o mundo ficcional, os artigos de revistas e as memórias.

Dos romances escritos pela autora, dois serão utilizados para discutir o processo de representação da mulher na produção narrativa: A filha de Jefté (primeiro romance publicado, em 1882) e Letícia (1908). Do primeiro, interessa-nos observar que a autora persegue o mito bíblico da mulher sacrificada, único mantido na Bíblia, para iniciar sua carreira literária que, de antemão, ela defende no prólogo essa escolha, afirmando que a idéia do abuso, da imprudência de um pai em destinar sua única filha para a imolação se constituía para ela em um ato abominável[1].

A escolha do tema bíblico atendia à necessidade de apresentar-se ao público com um modelo de romance que sendo destinado às mulheres, são elas que a autora considera suas interlocutoras, assim não poderia haver sobressaltos para a família, que poderia despreocupar-se, uma vez que a literatura dessa autora divulgava os ideais cristãos. Mas a escolha justamente de uma mártir pode-nos levar a perceber que a Anna Ribeiro está discutindo a própria condição sacrificial a que estavam submetidas as mulheres do seu tempo. Segundo o romance, a filha de Jefté não assume o holocausto involuntariamente, ela não é a vítima dada pelo pai; ela aparece representada como alguém forte, que assume a fé do pai por vontade própria. Esse modelo de mulher, destacado pela autora, irá percorrer boa parte das representações das personagens femininas, pode-se observar que há evidentemente um marca de leitura essencialista como se coubesse à mulher o papel de regeneração do mundo, reflexo do mundo positivista e republicano do final do século, todavia não se pode negar pela leitura do romance destacado que a autora, ao romancear a história da filha de Jefté, dando-lhe o traço romanesco, reproduz o mito bíblico, dotando-lhe de uma carga dramática que não se encontra no texto sagrado, o que transforma a violência masculina em ainda mais agravante.

O segundo romance que merece a consideração é Letícia, nele a autora defende uma situação pouco comum se considerarmos a classe a que ela pertencia – descendente das antigas famílias de propriedades rurais do Recôncavo baiano – a de uma mulher divorciada, não legalmente, afinal Anna Ribeiro era uma mulher do seu tempo, mas considera que para a protagonista do romance, casada com um homem de uma classe social mais baixa que a dela (ele era um profissional liberal que odiava o trabalho), prefere viver sozinha cuidando dos negócios da família, bens herdados após a morte do pai a viver na Corte um casamento de aparências. Ao longo do romance, a narradora defende que melhor é a separação do que a aceitação de uma marido infiel:

 

... uma mulher de mérito só se sujeita a isso se tem filhos, os quais levam uma boa mãe a todos os sacrifícios. Mas, acredita, vivem unidos a um tal marido, como o condenado preso ao poste do suplício. E admiro que haja homens tão faltos de dignidade, ou tão cegos pelo egoísmo, que aceitem e utilizem um tal sacrifício!

 

Até porque, continua o amigo, “é próprio da natureza humana pagar traição com traição”. Deste modo, o diálogo entre os dois personagens (Eurico e Fábio) – e é da voz masculina que se revela que a traição masculina pode se surpreender com a mesma moeda vinda da mulher –, o casamento não é uma condição necessária para uma mulher viver, tanto que a protagonista não aceita seu marido de volta, pelo menos não enquanto ele pensa assim.

Dispensando o marido, diz a narradora

 

Sob a atividade e tino da jovem senhora, a roça prosperou, dando considerável resultado pecuniário. Os capitais do Banco não foram levantados, sendo os prêmios acumulados, bem como o dinheiro do aluguel da casa.[2]

 

Quanto ao marido de quem ela se afastou, quando instada sobre sua situação familiar ou uma possível separação, ela respondia

 

– De modo nenhum. Ele tem sempre querido me levar para o Rio; eu é que não quero. Eurico é leviano, como são em geral os homens, e eu mais ciumenta que do que ordinário as mulheres. Quando a idade nos houver modificado, poderemos talvez viver juntos.[3]

 

A protagonista, para manter a sua tranqüilidade de mulher que habitava um mundo patriarcal, respondia assim, criando esse diálogo fictício com o marido apenas para manter-se em paz consigo mesma e evitando os possíveis falatórios dos vizinhos do mundo rural, que duvidavam da sua capacidade de conduzir os negócios da família sozinha, após a crise econômica do recôncavo provocada pela ausência da mão de obra escrava.

Se a produção ficcional garante um modelo de representação da mulher que pode se considerar como divulgador de determinadas idéias feministas: os que foram registrados, além da discussão do papel da educação das mulheres que aparece em ambos os romances, a crítica ao casamento por dote, ou mesmo ao casamento centrado na representação de amor romântico, que impedia as mulheres de discernir com maior clareza a sua condição dentro de uma sociedade patriarcal em Letícia; os artigos da autora seguem um caminho bastante diferenciado. Publicações patrocinadas pela Igreja Católica, o tom esperado das mulheres que pertenciam à liga das senhoras era bem outro. Assim, encontramos uma Anna Ribeiro mais prudente. Dos artigos publicados em A Paladina (mais tarde A Paladina do Lar), dois interessam à perspectiva que estamos adotando aqui nessa análise: “O feminismo” (1911), “O divórcio” (1912) e mais um terceiro “O feminismo na Finlândia” (1913), publicado na revista A VOZ da Liga Católica das Senhoras Baianas.

Além da sucessão de datas, a revista tinha publicação mensal, como se a cada ano fosse preciso lembrar dos perigos desse movimento: o feminismo, tomado pela autora como falso – ela defendia o feminismo cristão. O que nos chama a atenção em cada um desses artigos é o fato de que ela defende idéias diversas daquelas presentes em seus romances, senão vejamos o que diz a autora acerca do feminismo que, de alguma forma, seus romances defendem:

 

Dizem os apologistas do feminismo exagerado: Que a mulher deve ter, na sociedade, posição igual à do homem e gozar de todas as regalias que este egoisticamente criou somente para si; que ela deve instruir-se de modo a exercer todos os cargos, ter o direito de votar, etc.; que o homem atualmente, corrompido no exercício do seu longo domínio, é incapaz de promover a reforma de que a sociedade tem urgentíssima necessidade; que a mulher, conservada ilesa e pura, talvez em virtude de sua abstenção, é, indubitavelmente, destinada a regenerar a sociedade, o que só pode fazer imiscuindo-se em todos os negócios públicos, até agora reservados ao homem.

Não posso concordar com a totalidade de tais idéias. “Ninguém pode servir a dois senhores.” É uma grande verdade.[4]

Se a mulher se dedicasse à vida pública, quem cuidaria do lar, dos filhos? O homem? Salta aos olhos de todos que não foi talhado para isso .

 

As protagonistas dos romances agem de modo livre sem estarem apegadas ao “destino de mulher”: casar, ter filhos; elas estão sendo apresentadas sempre como mulheres que trabalham, se sustentam, e à exceção de Letícia e a mãe das jovens Dulce e Alina, que herdam fortunas, mas que são as grandes responsáveis pela manutenção dos bens da família através do trabalho. Portanto, atuam fora de casa, estão ainda, na maioria, em tarefas de mulheres são professoras, ainda assim cumprem funções e são pagas por isso.

Em outro artigo, o feminismo continua criticado:

 

Felizmente no Brasil não há grande tendência para o feminismo, talvez devido em parte aos heróicos esforços e dedicação de muitas Sras. brasileiras que têm tido o bom senso de opor-se à invasão desse perigo.[5]

 

O que a autora considera como perigo, na verdade, é o que de alguma maneira ela já vinha defendendo, de modo discreto e no mundo ficcional, desde os primeiros decênios em que atua como escritora, o medo decorre então do termo “feminismo”, que ficou apegado a uma série de valores depreciativos como a autora deixa entrever e precisa para conquistar suas leitoras e não assustar a Igreja com suas teorias em defesa da mulher e do seu papel na sociedade, com maior atividade que simples bibelô, por isso renega o termo.

O divórcio, driblado no mundo ficcional, em outro artigo, aparece como um grande desagregador da família:

 

O homem, embora não sendo marido exemplar, se conserva princípios de honra, não abandonará facilmente aquela que se obriga a proteger perante Deus e perante o mundo. Recuará ante a reprovação pública.[6]

 

Então, ela não acredita que o homem aceite deixar a mulher, mas faz exatamente o contrário em pelo menos duas narrativas.

Se passarmos para o último dos textos elencados, as memórias Longos sertões do campo (de1992), mas escrito em torno da década de 20. As memórias são escritas, segundo a autora, como um despretensioso texto em que atendia ao desejo da neta em conhecer o passado da família, entretanto elas cumprem um papel muito maior na medida em que se situam como um amplo painel do Recôncavo baiano, em suas diversas fases econômicas, lado a lado com a descrição cultural da vida no campo.

As memórias que ficaram guardadas cerca de 60 anos até serem publicadas se organizam a partir do segundo volume a partir do pacto biográfico a que se refere Lejeune: autora, narradora e personagem. Não pretendemos discutir aqui o caráter da “ilusão biográfica” (termo cunhado por Pierre Bordieu), mas apenas observar de que modo ela se insere como um texto que se situa entre a vida e a literatura.

A autora recupera a sua meninice e juventude, registrando fatos do cotidiano da casa, da vida das mulheres da sua época no espaço da casa. Nessa história de vida, encontramos uma Anna Ribeiro decididamente preocupada em resgatar as mulheres com as quais ela conviveu. Ela percebe que os valores do campo começam a ser destruídos pelos valores da cidade, novos hábitos são incorporados e as regras sociais, tão bem demarcadas para as moças do campo, deixam de se tornar parâmetros distintivos entre as ditas moças de família e as demais.

Um dos exemplos dessa nova educação está no caso das “afilhadas” do Monsenhor Silveira, Emília e Henriqueta[7]. Elas vão para o convento e, por motivo de doença, retornam ao campo para tratamento médico e desistem do projeto de seu “padrinho”: tornarem-se freiras. Elas são consideradas as “saídas”, as que têm um comportamento diverso, motivo de inúmeros comentários maldosos por parte de várias pessoas, sempre justificado pela mãe da narradora como reflexo de uma educação diferente, citadina.

Se compararmos essas características destacadas com a de outras mulheres de sua época é possível notar que há certa diversidade entre as mulheres que ocupam o mesmo espaço temporal, o que não é de estranhar, uma vez que ainda não se pode falar, no Brasil do século passado, de um conjunto feminino único, há mais diversidade que convergência. Principalmente, quando se compara o interior do País com as capitais, notadamente as do Sul, como Anna irá fazer ao analisar as moças de seu tempo que começam a se portar diferentemente do modelo padrão aprendido por ela.

Entre ser ficçionista e mulher de uma sociedade provinciana como a da Bahia do início do século, Anna Ribeiro vai estabelecendo uma multiplicidade de vozes a fim de encontrar um lugar dentro da produção literária da sua época. Ela não irá romper com instituições como a Igreja ou mesmo o casamento, mas, sem dúvida, irá valer-se deles para destacar, em seus textos, a árdua tarefa de “ser mulher”, registrando o jugo que elas submetiam as mulheres.



[1] Cf. Anna Ribeiro de Goes BITTENCOURT. A filha de Jephte; romance tirado da Escritura Sagrada. Salvador: Tipografia À Rua da Alfândeg, 1882.

[2] Id. Letícia; romance original. Salvador: Tipografia e Encadernação Reis, 1908. p. 140-1.

[3] Id. ibid.. p. 157.

[4]Id. O feminismo. A Paladina, Salvador, Tipografia Salesianas, ano II, p. 3-7, jul. 1911.

[5]Id. A VOZ Católica das Senhoras Baianas, Salvador, Tipografia Beneditina, ano I, n. 3, p. 29-30, jan. 1913.

[6] Id. O Divórcio. A Paladina. Salvador: Tipografia Beneditina, nov, n.11, ano 3, p.328-329. 1912.

[7] O termo é risível. Para não ferir o moral nem os bons costumes, as filhas do Monsenhor são tratadas por afilhadas. Ele é honrado e prezado pela sociedade, a mãe das meninas sequer se sentava à mesa em casa, quando da visita de estranhos. A situação é ilícita a ambos, mas somente a mulher tem seus direitos tolhidos. Sobre essa maneira como, mesmo em situações iguais, o tratamento dado a cada um dos sexos é de modo diferenciado, vale a pena registrar a afirmação de Jane Flax: homens e mulheres são prisioneiros do gênero, mas de forma diferente.(Cf. Jane FLAX. Pós- Modernismo e relações de gênero na teoria feminista [trad. Carlos A. de C. Moreno]. In: Heloísa Buarque HOLLANDA (Org.). Pós-Modernismoe política. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. p. 229.